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domingo, 21 de março de 2010

HOMILIA, proferida pelo P. Leonel, 3º Domingo da Quaresma 2010, Capela de Fradelos, 7 de Março

Vamos repetir o mesmo erro, agora muito mais grave, como diz o Apóstolo, que os nossos pais, os filhos de Israel, cometeram diante do Rochedo? Apesar de haver sido em figura, e a realização apenas confirmada em Promessa, em aliança anunciadora de uma outra aliança, Nova Aliança, e já na Lei haver aquela pedagogia que devia conduzir o Povo até à chegada do Cristo, “tudo o que aconteceu aos nossos pais, os filhos de Israel, aconteceu-lhes e foi escrito para nossa instrução”. Sim, para nossa instrução, razão por que na sequência das leituras sempre começamos pelos livros do Antigo Testamento, nós que somos povo do Novo Testamento, “nós que tocamos o fim dos Tempos”.

Porque, apesar de ser em figura, e a realização só vir depois, “o Rochedo era o Cristo”, o Rochedo ferido na Cruz donde brotou, com grande espanto de quem viu e testemunhou... donde brotou Sangue e Água, a Água Viva como de uma fonte.

Num mar de símbolos se diz o Espírito Santo, a Santa Inspiração derramada em nosso coração, a Fonte aberta dentro de nós, a Fonte que nos sacia a Sede insaciável, a Fonte que jorra para a Vida Eterna, a Fonte que dentro de nós nos purifica permanentemente e que dá a cada Cristão, que é outro-Cristo, aquela auto-suficiência que o faz sobre-viver nas piores condições. Razão por que nenhum discípulo de Cristo pode, hoje, desculpar-se com os tempos maus ou com a mediocridade da sua Comunidade... Os Leigos não podem desculpar-se com os Padres, nem estes podem justificar as suas faltas de empenhamento com a apatia, a indiferença e o tédio que devora, como um cancro, as nossas paróquias, até porque isso, que foi o estado-das-Almas nos séculos XVIII e XIX e princípios do século XX, agora já não é verdade: hoje, nos dias que correm, Bernanos teria escrito um outro, muito diferente, Diário de um Pároco de Aldeia, depois do último Concílio Ecuménico.

O Regresso às Fontes renovou as Igrejas de lés a lés, imparável renovação que virou as costas definitivamente ao 2ºMilénio dos nossos descontentamentos, o milénio-da-Crise que no século XX se tornou de-todas-as-Crises... Deixemos para trás os enjoados, os revoltados, ou...os cães raivosos que nos oferecem cisternas rachadas, cisternas vazias, que nos desesperam a Sede e nos enganam a Fome.

É verdade que o ajuste- de-contas ainda não acabou, está longe de acabar. Durante muito, muito tempo ainda, o deve e o haver da Igreja nas suas relações com o Século, relações da Economia da Salvação, nos vai ocupar, e preocupar, tantas vezes ainda nos tirará o sono e assombrará os nossos Nocturnos. Mas é diante de Cristo que a Igreja se justificará: “Tiveste 5 maridos e...” E agora o que tens é o teu Marido, o teu verdadeiro Esposo? Igreja, minha mãe, deixaste definitivamente os teus amantes, tal como a Samaria, que se converteu a Cristo, deixou os 5 ídolos de Baal, Belzebu, o deus-das-Moscas?

É verdade que os teus Bispos já deixaram o tabuleiro do Xadrez, e os que não deixaram estão a ser chutados, assim como os teus Doutores estão a voltar para o Povo... Mas por vezes, entre nós, entre os Portugueses, pareces, Igreja minha mãe, ainda ter saudades dos Teres, Poderes & Saberes, que te fizeram perder a cabeça.

É preciso que a nossa comida seja a comida do Cristo Jesus que tinha mais que fazer do que comer à vista da fome das multidões que corriam para Ele, e à vista dos campos à espera dos ceifeiros para colher o fruto das Sementeiras. Não nos isolemos na auto-consolação quando o Povo precisa de quem o console, de quem o liberte das convenções que são prisões nos sítios que são estados de sítio.

terça-feira, 2 de março de 2010

HOMILIA, proferida pelo P. Leonel, 1º Domingo da Quaresma 2010, Capela de Fradelos, 21 de Fevereiro

Um número incontável de tradições ao longo de séculos colou-se à Igreja, mas não precisamos de nos preocupar excessivamente com todo este folclore que só engana quem gosta de ser enganado. Desde o entrudo (entrada burlesca), que foi um produto judaizante das práticas viciadas do A.T. com os seus jejuns e abstinências que nos trouxeram o Carnaval (Carne vale! Adeus, ó carne!) seguido de Quaresmas carregadas de hipocrisia que o nosso Mestre clara e corajosamente combateu entre os Judeus, falsas práticas de falseadas quaresmas enganaram muita gente sobre o verdadeiro sentido da penitência que os Santos sempre compreenderam como exigências da Metanóia, conversão e reformação eficazes face às deformações tantas vezes acumuladas.

O regresso dos Catecúmenos, pela iniciação de Adultos em-Cristo e na-Igreja, se encarregará de renovar a Quaresma na sua verdadeira função, capaz de restituir à celebração anual da Páscoa, que se projecta no Pentecostes, o sentido cultural e pastoral autêntico.

Que foi o Cristo Jesus fazer ao Deserto onde durante 40 dias (quadragésima > Quaresma) enfrentou as causas do Desastre que fez da Terra, criada para ser um paraíso, o Inferno e a des-Graça que ainda hoje reinam entre as pessoas e as nações? Sim, foi denunciar as verdadeiras causas do mal-do-Homem: a Idolatria mãe de todos os males, e diante da qual o povo de Israel tantas vezes sucumbiu no Sinai onde durante 40 anos se enterrou e à qual durante a sua complicada história repetidamente sucumbiu.

A tentação do Pão, a tentação do Ouro. e a tentação da Vaidade. As guerras do Pão, as adorações do Dinheiro, e as pompas do Mundo. Mentiras, que é preciso afrontar e enfrentar, para as desmascarar, na sua máxima fabulação histórica: Satanás, ou o Diabo, pai de todas as mentiras, ele próprio a maior mentira, mentira histórica, expressa na Idolatria, a mãe de todos os males, que nos perturba o acesso aos Bens criados para o nosso Bem.

A Idolatria começou logo pelo falso conhecimento, a Gnose-de-nome-mentiroso, o saber sem sabedoria, isto é, a ciência sem consciência, que inventou as máquinas de guerra em cultos e culturas de Morte, desertificação da Terra que nos foi dada para fazermos o Paraíso, e que, além de ter reduzido tudo a cinzas e a um deserto, instaurou entre as pessoas e as nações a Lei da Selva: nos dias que correm uma lixeira imensa que envenena os próprios alimentos da Vida. Nos dias que correm, de caras, na mais cruel das constatações e detecções, o poder do Dinheiro que põe toda a gente de rastos e que nos arrasta para o Desastre final à vista, aí está a envenenar a própria Economia, impedindo-a de usar os Meios, que se multiplicam a esmo, à luz dos Princípios e dos Fins. É a 25ª Hora? A hora depois da qual já não há tempo para remediar seja o que for?!... Se assim é, se assim fosse, é ou seria a hora de levantarmos a cabeça, a hora (que ninguém sabe, ninguém conhece) da Vitória Final. A Graça tem outras horas, as horas da Graça, todas da Fé e da Esperança, do Amor que é mais forte que a Morte!

Agora, nesta hora, trata-se de abrir os olhos e de estender as mãos para experimentar e verificar o Estado do Mundo. Diante de nós estão as relíquias desgraçadas do Desastre, visíveis no Deserto, à vista desarmada: as cinzas do Desastre, por onde Israel passou mas não percebeu, e que à Igreja foi eloquentemente explicado no meio da aridez pelo Cristo Jesus naqueles 40 dias, aquela 1ª Quaresma (quadragésima ou quarentena) que iniciou as vitórias que ao povo do Novo Testamento arrancou hossanas de glória, de vitória em vitória até à Cruz, a bandeira da Vitória Final que demoliu o Muro do Ódio e rasgou o decreto da nossa condenação, vitória consumada pelo Cristo Jesus e a estender ao Mundo inteiro nos e pelos membros do seu Corpo, corpo de Cristo, a Igreja de que Ele é a cabeça, Ela que é a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos. Desde as Cinzas aos Ramos, e dos Ramos à Ressurreição, vamos viver a intensidade da Páscoa de Cristo. Quem hoje não vibra já com a vitória de Cristo sobre as mentiras do Século? É a hora de cantar já vitória: Hossana!

Com um coração renovado, na noite e no dia de Páscoa, que inaugura o 8ºDia, o primeiro dia de uma Nova Criação, cantaremos Alelúia! Desde o Hossana! ao Alelúia! vai já toda a alegria das sucessivas vitórias dos Santos, que passaram das Trevas à Luz, do Pecado à Graça, da Morte à Vida. Ressuscitaremos novos do Desastre!

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

HOMILIA proferida pelo P. Leonel, na novena de Natal, ano B, Capela de Fradelos, 21 de Dezembro de 2008

Natal vem de Dies Natalis, isto é, o dia do nascimento de alguém celebrado como aniversário hoje universalmente generalizado. Como festa o Natal tem originalmente tudo a ver com o Sol, a estrela que ilumina e aquece o nosso planeta, razão por que as religiões pagãs o adoravam, entre os deuses, como deus máximo. O Sol, como sabemos, tem dois nascentes, um diurno a Oriente e anual no Solstício do Inverno situado antigamente a 25 de Dezembro. Foi, sobretudo entre os Romanos, a maior festa religiosa de sempre chamada Natale Solis Invictus, Natal do Sol Invencível, festa preparada pelas Saturnais, uma novena de adoração a Saturno, autêntico carnaval nocturno de excessos, orgias, e violências, de tal ordem que foi chamada Festa dos Loucos.

Mateus e Lucas, que escreveram sobre o nascimento do Cristo Jesus, não o fizeram para agora nós, os Católicos, termos o nosso Natal, até porque em sítio nenhum nos é dada informação sobre a data do nascimento de Jesus, nosso Mestre. Por outro lado, por razões unicamente de aculturação, foi que a Igreja começou no ano 330 a celebrar o Natal de Cristo, Solis Justitiae, Sol-da-Justiça. Até porque a grande festa dos Cristãos não é, nem nunca foi, o Natal mas a Páscoa. O Advento, contrariamente ao que agora se convencionou, não prepara as festas do nascimento do Cristo Jesus. O Advento é escatológico, isto é, prepara-nos com a leitura dos Sinais-dos-Tempos para o regresso de Cristo no fim do Tempo.

As festas do Natal de Cristo preparam-se com a Novena do Natal, a única novena litúrgica que a Igreja realiza para substituir o que foi a novena de Saturno que preparava as festas do nascimento do deus Sol, o Natale Solis Invictus: Natal do Sol-Invencível que à medida que declinava, ao aproximar-se do Trópico de Capricórnio, ao sul do Equador, o Ano Velho ia morrendo e no Solstício do Inverno, a 25 de Dezembro, fazia nascer o Ano Novo.

Podemos perceber um pouco o que foi a Festa dos Loucos, ao olhar a ansiedade com que em todo o Mundo se celebra a passagem do Ano. O Natal propriamente dito, marcado com as festas do nascimento de Cristo, Natale Solis-Justitiae, o Natal de Cristo Sol-da-Justiça, ao longo destes vintes séculos provocou uma mudança dos costumes, de tal maneira que as famílias reúnem-se para a Ceia de Natal, tranquilamente, e depois participam na Missa do Galo, assim chamada porque é uma autêntica vigília. Mas mesmo assim, o Natal ainda é, algo louco: ai de quem faltar à Ceia de Natal!

E correm lágrimas ao lembrar os que já morreram. Muita gente não sabe que o costume de deixar a mesa posta toda a noite tem a ver com uma ideia ainda muito pagã: depois das pessoas se deitarem os Mortos têm a mesa à sua disposição. A aculturação do Natal de Cristo no Natal do Solstício trouxe-nos estas e muitas outras misturas…

À medida que as comunidades da Una e Santa, a Igreja católica e apostólica, semper reformanda, se forem renovando, pois têm o Futuro diante de si, é possível que os frutos da Aculturação continuem a renovar os costumes e a corrigir os velhos vícios. Mas a Graça precisa de tempo e de gente que não se conforma com as conquistas do que se convencionou chamar erradamente os bons velhos tempos…

E a aculturação da Evangelização não tem a ver só com o Natal. Tem tudo a ver com a Vida toda, o Ano todo. Os Profetas anunciavam Quem não conheciam. Os Apóstolos, de todos os tempos, testemunham Aquele que conhecem e que esperam a todas as horas marcadas pela Última Hora: Aquele em quem acreditamos, amamos e esperamos, é Este. Não é outro. Este que foi menino, o Menino, e que como nós nunca mais é menino. Só se é menino uma vez na Vida. Sabemos hoje, cientificamente, que tudo é singular, o Universo, a Vida, o Homem. Já o sabíamos pelo Evangelho, só que andávamos esquecidos…

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

HOMILIA proferida pelo P. Leonel, NO DOMINGO XXXII T.C. Ano A, Capela de Fradelos, 9 de Novembro de 2008

A curiosa e interessante relação das histórias e acontecimentos da Realidade em que as fibras do nosso coração estremecem e se entrelaçam nos enredos do nosso quotidiano... A profunda relação da Realidade com os mistérios do Reino dos Céus, dá às histórias e aos acontecimentos reais um sentido que os ultrapassa, à luz do Mistério de Cristo. Há quem lhes chame metáforas, trocas de significação em virtude da relação de semelhança subentendida. Eu, pessoalmente, não gosto das leituras metafóricas usadas muitas vezes por quem não entendeu o fundo das questões. Ora, parábolas não são metáforas, mas na boca do Cristo Jesus aproximações à realidade e ao Mistério, mistério da Realidade e realidade do Mistério. Razão por que o nosso Mestre multiplica e acumula as parábolas, para que entendam os que procuram a Verdade e para que não entendam os que da Verdade não querem saber. A parábola, na boca de Jesus, é uma arma de dois gumes para que se definam os campos e as posições de cada um, nos termos da Graça e da Verdade.

Não é pequeno o descuido de quem, por estar numa festa, deixa de estar atento a si próprio e aos outros, portando-se como um louco, gente incapaz da Liberdade, gente para quem a Liberdade só serve para fazer asneiras... Não é pequena a loucura, ou leviandade, de quem não leva a Vida a sério, só porque esta vida são dois dias, ou então porque as noites dão para esconder muita coisa e para passar desapercebido, até deixar de ser reconhecido...

A Festa, a festa da Vida, é demasiado importante para não ser levada a sério. “A seriedade é o princípio da Sabedoria”, que é a fonte da alegria de viver. O que exige uma vigilância permanente. Quem perde a lucidez, põe em perigo a sua vida. Os divertidos acabam quase sempre em pervertidos. Quem, por estar ou se julgar em festa, deixa a Seriedade em casa, e a mete na gaveta, acaba em desmancha-prazeres... “Por que será, perguntou aquele mexicano ao pároco da sua aldeia, que o povo quando está feliz só faz asneiras?” Ainda há muito de pagãos nos nossos cristãos: à volta das nossas igrejas e capelas, nas nossas romarias, corre o vinho e corre o sangue... Começa-se a rir, e acaba-se a chorar. Começa-se em festa, e acaba-se em tragédia. Não estou a usar metáforas. São casos do dia, os faits divers da Realidade a mudar e a transformar, enquanto é tempo.

Um ponto firme, seguro, inalterável e definito, do evangelho de Cristo, da boa nova do Reino dos Céus: a vida é uma Festa, a festa da Vida. Mas isso, isto, exige toda a seriedade da Sabedoria, mais, muito mais que tudo o mais. Senão, acaba mal. Acaba como aqueles divertidos loucos que, quem os conhecia no trabalho e em casa, não os reconhece no meio de tantas tolices e asneiras, e tristes figuras. Há gente que não aguenta a Liberdade, gente para quem a Liberdade só serve para a perder.

O Tempo Comum está a chegar ao fim. Os dois últimos domingos do Tempo Comum, este ano, Ano A, sob as leituras de S.Mateus, são escatológicos. Sentido que já se vem verificando ao longo dos precedentes domingos. A Escatologia é a ciência da Esperança, um saber sustentado, alimentado na “dinâmica do Provisório” cujas insuficiências não desorientam quem acredita na Vida, quem ama a Vida. “Eu amo, logo vivo!” “Quem não ama está morto!” “Deixai os Mortos enterrar os seus mortos”.

Temos muito que fazer, mais que fazer do que perder o Tempo diante do Muro das Lamentações. As multidões do Evangelho voltaram em todo o lado, por toda a parte. Não vem nos jornais nem nos telejornais, a não ser a rotina dos Pagadores de Promessas que fazem de Fátima uma trapalhada… à espera de um esclarecimento histórico, quando a verdade vier ao de cima, se ainda for a tempo!...
Todos nós, apesar de muitos, somos poucos para tanto trabalho, o trabalho da Evangelização. São os trabalhos da Liberdade. Não são os trabalhos da Lei, que esses já estão feitos, e não foram nem vão mais longe, como pedagogia…